A minha mãe disse-me, com um ar resignado, que estava a pensar deixar o meu pai ter um animal, como prenda de Natal. Ela disse "deixar ter" e "animal", em vez de "fazer uma surpresa ao teu pai e adoptar um cão". E disse também que o dito "animal" teria de passar primeiro por ela para ser aprovado. Tipo, teste de admissão à faculdade. Todos os meus alarmes de ameaça nuclear dispararam, obviamente.
Tentei incutir-lhe algum bom senso, e a conversa foi algo do género:
- Então e se o cão roer alguma coisa lá em casa?
- Ai, não pode.
- Como "não pode", mãe? Não só pode fazer, como vai fazer. Mais cedo ou mais tarde vai estragar alguma coisa.
- Não, se já for adulto não estraga nada. Não é?
- Não, não é. Estraga menos do que um cachorro, claro, mas estraga, suja, larga pêlo, arranha, corre, faz essas coisas todas. É o mesmo que dizer a uma criança para não chorar nem sujar uma fralda?
- Oh! Que raio que comparação! Pronto, está bem.
Aparentemente ela desistiu da ideia. Falei-lhe da responsabilidade, da prisão, das despesas, de tudo. Ela não deu luta nenhuma, porque não precisa de ser convencida, pois na realidade ela não quer ter um cão nem um gato nem nenhum animal. Aliás, ela admitiu que a única cadela de quem gosta é a do meu irmão. Oh que surpresa, a minha mãe nem nisso esconde a preferência... A desculpa dela é o ladrar, diz que não gosta de alguns cães porque o ladrar é muito estridente. A verade é que ela não gosta de animais, não percebe a cena. Para ela só dão os de peluche ou de loiça (a minha mãe é daquelas que fica com um risinho nervoso e uns "ais" mal um focinho molhado lhe roça as pernas).
Claro que eu fico com pena pelo meu pai, que cresceu no campo, e adora cães, e sente-se sozinho (ele está reformado mas a minha mãe ainda não) e etc etc etc. Mas não posso, em consciência, incentivar a ideia de eles adoptarem um cão, porque acho realmente que é preciso toda a família estar de acordo e estar disposta a tudo o que isso implica. E ninguém me tira da cabeça que ela só me veio com esta conversa, sabendo como eu iria reagir, para depois um dia poder dizer ao meu pai que é apenas por minha culpa que eles não têm um cão.
E claro que também tenho a noção de que há muitos cães a precisar e que ao fechar os olhos e entregar um aos meus pais uma vida seria salva.
Mas... é a minha mãe e eu sei a mãe que tenho.
Estou triste, mas tenho a consciência tranquila.
Há 3 meses








O selo da autoria de Pedro Trindade ganhou!!!